03/06/2014 (05:51)

ACADEMIA:PRECONCEITO IDEOLÓGICO QUE AFETA O DEBATE CIENTÍFICO

Parecerista da Capes justifica a recusa ao projeto por trabalhar com materialismo histórico

 

 

                                      Divulgando

 

 

Parecerista da Capes justifica a recusa ao projeto por trabalhar com materialismo histórico. 

É com muita tristeza e indignação que socializamos com todos/as vocês síntese do parecer da CAPES relativo ao Projeto "Crise do Capital e Fundo Público: Implicações para o Trabalho, os Direitos e as Políticas Sociais", apresentado ao Edital Procad 071/2013. O Projeto envolve a UnB, UERJ e UFRN, 19 docentes, 09 doutorandos/as, 15 mestrandos/as e 27 graduados/as. 

Nossa indignação não se refere à não recomendação em si, mas à justificativa utilizada pelo parecerista: "Projeto afirma basear-se no método marxista histórico-dialética. Julgo que a utilização deste método não garante os requisitos necessários para que se alcance os objetivos do método científico" (…) "considerando a metodologia a ser empregada - cujos requisitos científicos não tem unanimidade - a proposta pode ser considerada pouco relevante" (…) "a formação proposta estaria no âmbito do método marxista histórico-dialético, cuja contribuição à ciência brasileira parece duvidosa". 


No dia 30 de maio, conforme o Edital, impetramos recurso na plataforma Sicapes. Contudo, o espaço disponível de apenas 5000 caracteres com espaço não nos permitiu a exposição de motivos que demonstra, em detalhes, o caráter anticientífico, sectário e desrespeitoso para com as Ciências Humanas e Sociais, o projeto e seus autores. Por isso, enviamos um documento de recurso mais detalhado ao presidente da CAPES. Quem desejar conhecer o parecer na íntegra e nosso recurso, por favor nos solicite por email (ivaboschetti@gmail.com ou elan.rosbeh@uol.com.br). 

A equipe de docentes do Projeto decidiu denunciar este inaceitável patrulhamento ideológico e tratamento desrespeitoso a todos que adotam o método crítico dialético, dentro e fora da nossa área. Não se trata apenas de recusar um projeto, mas de desqualificar qualquer pesquisa fundada nessa perspectiva, tratada como não científica e desprovida de mérito técnico científico.Neste momento, nos importa fundamentalmente denunciar esse impropério e defender veementemente a pluralidade, liberdade ideopolítica e o respeito ao método dialético marxista, e a todo seu legado científico, que tanto vem contribuindo para pensar criticamente a sociedade brasileira, a crise contemporânea e seus dilemas. Vale registrar, também, que nenhum projeto da área de Serviço Social foi aprovado neste Edital, e que dos 62 aprovados, mais de 90% são das áreas de exatas e biomédicas.

Abraços da Equipe de Docentes do Projeto:

Universidade de Brasília - Proponente
Ivanete Salete Boschetti - Coordenadora
Evilásio da Silva Salvador
Rosa Helena Stein
Sandra Oliveira Teixeira
Maria Lúcia Lopes da Silva

Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Participante
Elaine Rossetti Behring – Coordenadora
Alba Tereza Barroso de Castro
Marilda Vilella Iamamoto
Maria Inês Souza Bravo
Maurílio de Castro Matos
Mariela Becher
Tainá de Souza Conceição
Juliana Cislaghi Fiúza

Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Participante
Rita de Lourdes de Lima – Coordenadora
Silvana Mara de Morais dos Santos
Andreia Lima da Silva
Maria Célia Correia Nicolau
Severina Garcia de Araujo
Ilka de Lima Souza
 Miriam de Oliveira Inacio

 

A ALAL – Associação Latino-Amaricana de Advogados Laboralistas (www.alal.com.br) repudia o inaceitável patrulhamento ideológico contido no parecer da CAPS que rejeitou a utilização da análise marxista em Projeto que discute a "Crise do Capital e Fundo Público” e se soma às demais manifestações de repúdio que vem sendo tornadas públicas na imprensa e nas redes sociais.

Luiz Salvador, Vice-Presidente Executivo da ALAL.


ACADEMIA: PRECONCEITO IDEOLÓGICO QUE AFETA O DEBATE CIENTÍFICO

 (*) Grijalbo Fernandes Coutinho   

   Recebi com assombro a notícia enviada  hoje pelo professor Jorge Luiz Souto Maior(USP)  a uma lista de pessoas ligadas ao mundo do trabalho("O Trabalho no Mundo"), a respeito do "Projeto "Crise do Capital e Fundo Público: Implicações para o Trabalho, os Direitos e as Políticas Sociais", apresentado ao Edital Procad 071/2013. O Projeto envolve a UnB, UERJ e UFRN, 19 docentes, 09 doutorandos/as, 15 mestrandos/as e 27 graduados/as",   conforme notícia  transcrita abaixo:

"É com muita tristeza e indignação que socializamos com todos/as vocês síntese do parecer da CAPES relativo ao Projeto "Crise do Capital e Fundo Público: Implicações para o Trabalho, os Direitos e as Políticas Sociais", apresentado ao Edital Procad 071/2013. O Projeto envolve a UnB, UERJ e UFRN, 19 docentes, 09 doutorandos/as, 15 mestrandos/as e 27 graduados/as. Nossa indignação não se refere à não recomendação em si, mas à justificativa utilizada pelo parecerista: "Projeto afirma basear-se no método marxista histórico-dialética. Julgo q a utilização deste método não garante os requisitos necessários para que se alcance os objetivos do método científico" (…) "considerando a metodologia a ser empregada - cujos requisitos científicos não tem unanimidade - a proposta pode ser considerada pouco relevante" (…) "a formação proposta estaria no âmbito do método marxista histórico-dialético, cuja contribuição à ciência brasileira parece duvidosa".  

  Ao que me parece, a restrição é  de ordem ideológica.  Na área das ciências sociais ou da própria ciência de um modo geral, qual é o método  asséptico de estudo de determinado fenômeno  que não suscita alguma controvérsia sobre a sua cientificidade?   Abstraindo a razão de fundo antes apontada,  a  sensação é  de estarmos no século XIX, como obtusos iluministas ainda amparados no  racionalismo metafísico burguês,  cuja ideia  controversa de  verdade absoluta   resplandeceria  necessariamente da lógica capitalista liberal  e do progresso científico  irreversível.

   Embora dotado de extraordinário talento intelectual,  cujo doutoramento se deu aos 23 anos de idade em filosofia,na época de sua juventude, as universidades europeias, no século XIX, impediram o  ingresso do depois maduro Marx como professor por conta  de seus ideais comunistas. Agora, na segunda década do século XXI, a Academia brasileira poda  a realização de  pesquisa científica com foco nos estudos de Marx,  decisão essa baseada exclusivamente no critério subjetivo  da ausência de cientificidade de teoria altamente representativa do  personagem histórico  mais temido pelo mundo capitalista.

  Mesmo trafegando em vias  diferentes, Marx e  Nietzsche desmontaram, do ponto de vista filosófico, a farsa metafísica a serviço do regime da exploração do lucro e da acumulação de riquezas materiais.

      Marx com o seu fenomenal  materialismo histórico dialético. O  gênio  da Renânia precisou compreender e superar gigantes do pensamento filosófico e econômico, entre outros, Hegel, Feurbach, Ricardo e Smith.    Marx inaugurou o marxismo, ciência ou não(na minha qualidade de curioso do tema, registro,  ciência) até hoje enaltecida e  questionada  no mundo acadêmico, eficaz  instrumento de luta permanente da classe operária mundial.  Ele  combateu o caráter ideológico  do  racionalismo metafísico iluminista,  assim como  o fez pela negação do conteúdo idealista da dialética  do último racionalista clássico, o seu inspirador na universidade, Hegel, ao dizer, por exemplo, que a realidade (condições materiais advindas das relações de produção) determina a formação das ideias e não o contrário. O  teórico  estudou profundamente, mesmo diante de tantas adversidades financeiras e políticas,  as relações econômicas históricas, os seus movimentos, o trabalho, a mercadoria, o capital sob balizas diversas, inclusive matemáticas e sociológicas, para fundar uma nova teoria, a mais debatida no mundo acadêmico anos depois de sua morte, em 1883.  Desde então, todos os pensadores tiveram que por ela(teoria) passar, chancelando-a, revisando-a ou simplesmente negando-a de modo fundamentado.

Nietzsche, como   brilhante filólogo,  implode de vez  a base do racionalismo metafísico vigente durante muito tempo para declarar que não há neutralidade nas palavras, nem nas teorias sustentadas em princípios aparentemente isentos. Para o filósofo mais avesso à filosofia tradicional, tudo demanda interpretação, inclusive a mais genuína palavra criada ou proferida depois por inúmeras pessoas.    Não existem verdades definitivas, considerando que até mesmo na criação e formação das palavras há, antecipadamente, interpretações a elas conferidas para um determinado fim, daí porque a tarefa central da humanidade está longe de ser a da busca da verdade, do pleno conhecimento e de tudo que o racionalismo metafísico anunciou como sendo o mundo ideal para uma paz duradoura.  Também o imobilismo deixa de integrar o receituário de Nietzsche, não só porque confere ele primazia à interpretação das interpretações das palavras, como também prega a rebelião contra a ordem dominante sustentada na figura de Deus montada pelo cristianismo, por ele anunciado como morto que precisa ser sepultado.  Os filósofos não marxistas mais contundentes, a partir do século XX , explicita ou implicitamente, bebem na fonte nietzschiana,  a exemplo dos denominados "pós-modernistas". Alguns deles, também na área do direito, não desprezam Marx pura e simplesmente. Dele extraem vários conceitos para os seus estudos e as suas conclusões.

   A  atitude  burocrática  em questão é quase uma coisa de  iluminados neoiluministas, ao fecharem a porta para projeto por demais relevante, ontem, hoje e  amanhã.  É  demasiadamente equivocado confundir  Marx e o marxismo com as atrocidades do stalinismo durante o século XX. Guardadas as devidas proporções, é como debitar na conta do   pregador  Jesus de Nazaré  a responsabilidade  pela  fase  mais perversa do cristianismo, durante a idade média inquisitorial, quando a igreja católica  expropriava em proveito próprio, queimava, esfolava e matava pretensamente em nome  dos  ideais do seu guia espiritual e  inspirador de todos os seus atos.

    Estou realmente impressionado.  O método marxista não serve para a verificação  de determinado fenômeno? Os novos inventores da roda sociológica  deveriam ao menos indicar outros caminhos revolucionários para se chegar ao intento perseguido ou ao  reino da "ciência pura". Cuida-se, no caso, de  preconceito ideológico capaz  de  impedir uma análise crítica da  teoria mais discutida nas universidades desde o início do século XX.  Quando alguém  tiver o cuidado de examinar as  pesquisas na área das ciências sociais, por qualquer método estatístico, perceberá que  talvez nenhum outro autor da modernidade  tenha tanta influência sobre os trabalhos acadêmicos realizados, como é o caso de Karl Marx.  Parte considerável das bibliografias utilizadas passa por Marx em algum aspecto, reitero, para confirmá-lo, revisá-lo ou refutá-lo. Os marcos teóricos e  as outras fontes bibliográficas estudaram o marxismo para a formulação de suas teorias. 

  Até  as novas  escolas liberais mais convictas não tratam Marx  como nobre desconhecido ou sujeito irrelevante para a ciência. Aliás, em determinadas passagens adotam o seu método  de trabalho, não o do materialismo histórico dialético, evidentemente.  O descobrimento   da mais-valia, com todos  os seus desdobramentos para a economia política,  não teria sido tão fecundo sem o estudo da teoria do valor-trabalho do liberal clássico Ricardo.  Nesse giro do conhecimento dialético,  é praticamente descartada a possibilidade de explicar o capitalismo na atualidade, mesmo que se tenha como objetivo  único defendê-lo intransigentemente, sem  olhar para alguns aspectos   da  obra do pesquisador que  mais estudou  o regime econômico da  mercadoria  e da mercantilização de tudo. Em outras palavras, os comunistas e capitalistas não partem do nada, nem ignoram as eventuais premissas verdadeiras contidas nas análises de seus mais ferrenhos adversários de classe.

  Aluno em sala de aula, na graduação e na pós-graduação, não me recordo de nenhum autor que  tenha  tanta influência nas discussões travadas em torno das ciências sociais.

   Ninguém  precisa concordar com Marx, nem com Einstein, embora seja muito mais penoso compreender ou explicar  a economia capitalista, a filosofia e a física  contemporâneas  sem o contato com o pensamento desses dois renomados  cientistas.  É necessário  reconhecer o óbvio: o pensador comunista  é o gigante  das ciências sociais, mesmo  diante do enorme retrocesso  ideológico visto nas últimas décadas.

 Tenho a impressão que uma decisão profundamente equivocada como essa provocaria espanto em boa parte do mundo acadêmico fora do Brasil.  Em outras palavras, poucos ousariam explicitar rasgado preconceito ideológico, tacanho, pobre em sua intenção, miserável em sua  qualidade científica.  

 É notório que a Academia, via de regra,muitas  vezes em nome da suposta neutralidade, não nutre grande simpatia pelos  militantes políticos marxistas engajados em partidos operários, negando, assim, a meu juízo,  parte fundamental  da teoria marxista, que é a prática revolucionária incessante.  Já ouvi em sala de aula a seguinte frase de professor(a) do mais alto gabarito intelectual: "Marx é genial. O problema são os marxistas"( provavelmente,Lênin, Trotski e outros menos famosos).  A Academia  sempre reverenciou os estudos de Marx, sem tomar em conta a sua própria atividade política intensa no século XIX voltada para a organização mundial da classe trabalhadora e para a revolução social. Por isso mesmo, a estetização da  obra é o objeto vindicado, independentemente dos efeitos práticos almejados com os escritos revolucionários.  Agora, no entanto, cai   a máscara de vez. A máscara vai voltar, simplesmente porque ainda não inventaram nada mais profundo e instigante  do que a teoria do velho alemão. Mesmo os que o detestam, têm que se contrapor de modo articulado  às suas concepções, sob pena de os estudos serem tido por incompletos. Se Marx morreu, mostrem o seu cadáver. Realizem a autópsia de O Capital, de O Manifesto do Partido Comunista e de várias outras obras do indomável touro alemão. A  existência de tal inquietude  -  a relevância ou não da teoria marxiana para a ciência na atualidade -, por si  só,  já é suficiente para autorizar a pesquisar em torno do tema.

  Para encerrar  esta  mensagem enviada à lista O Trabalho no Mundo: quem sabe os  estudiosos  os quais  rejeitam peremptoriamente  a análise   da teoria marxiana  não   tenham uma nova teoria social guardada a sete chaves, a ser divulgada brevemente com a finalidade de revelar  a falta de cientificidade do materialismo histórico dialético?  Por enquanto, sobressai-se apenas  o preconceito ideológico, aliado ao  caráter nada científico  da decisão, com uma cara indisfarçavel  de discurso focado exclusivamente na  propaganda midiática vendida  como isenta matéria jornalística.  É a academia sendo contaminada pela ideologia dominante, fazendo de sua fundamentação o conteúdo dos  editoriais, das matérias rasas e tendenciosas  dos meios de comunicação. 

  (*)  Grijalbo Fernandes Coutinho, mestrando em Direito do Trabalho pela UFMG, aluno  que pouco sabe de Marx, até pela complexidade de sua obra,  mas que sem ele talvez não conseguisse  sequer  compreender o fundamento econômico-histórico  dos diversos modelos de sociedade, muito menos entenderia  a ideologia ou, sob o prisma ideológico, o fetiche do mercado, além da verdadeira   razão  da existência dos sujeitos  que vivem do próprio trabalho e daqueles vivem afortunadamente  do trabalho alheio

 Observação: mensagem encaminhada originariamente à lista/grupo de discussão O Trabalho no Mundo e depois a vários destinatários individuais

 

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